Skip to main content

Pesquisas apresentadas durante a Bett Brasil 2026 revelam avanço acelerado da inteligência artificial nas escolas, enquanto especialistas alertam para superficialidade pedagógica, excesso de automação e perda de pensamento crítico

Débora Thomé

Durante anos, a tecnologia ocupou na educação um espaço associado à inovação complementar. Na Bett Brasil 2026, no entanto, os dados apresentados deixaram claro que esse ciclo terminou. A inteligência artificial já interfere na escolha das famílias, redefine a rotina dos professores, reorganiza práticas pedagógicas e acelera a digitalização das escolas brasileiras. Ao mesmo tempo, cresce entre educadores, gestores e especialistas a percepção de que aprendizagem não pode ser reduzida à eficiência tecnológica.

As principais pesquisas divulgadas durante o evento, realizado entre 5 e 8 de maio, em São Paulo, revelam justamente essa tensão. De um lado, plataformas digitais, IA generativa e personalização do ensino avançam em ritmo acelerado. Do outro, acolhimento, saúde emocional, pensamento crítico e relações humanas aparecem como prioridades centrais para o futuro da escola. O debate que emerge não contrapõe inovação e tradição, mas questiona quais dimensões da experiência educativa podem — ou não — ser automatizadas.

A pesquisa inédita da Abraspe, realizada com mais de 1.500 pessoas entre pais, alunos, professores e gestores, mostra que 77% das escolas particulares já adotam plataformas de ensino e 83% utilizam materiais didáticos digitais. Já o relatório da edtech Teachy aponta que mais de 80% de professores e estudantes usam inteligência artificial regularmente em atividades educacionais, consolidando a IA como parte estrutural da rotina escolar.

O contraponto veio do relatório “Digital Education Outlook 2026 – Exploring Effective Uses of Generative AI in Education”, apresentado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). O estudo alerta que, apesar da rápida adoção das ferramentas, grande parte das escolas ainda utiliza inteligência artificial de forma superficial, operacional e pouco estratégica, sem garantir aprendizagem profunda ou desenvolvimento efetivo de competências.

Mais do que tendências isoladas, os dados revelam uma mudança de paradigma. A escola passa a operar em um ambiente onde tecnologia, gestão pedagógica, formação docente e relações humanas deixam de funcionar separadamente. A discussão central agora não é mais sobre adesão digital, mas sobre qual modelo educacional conseguirá equilibrar inovação, pensamento crítico, convivência e desenvolvimento humano.

Plataformas e IA deixam de ser tendência nas escolas

Os números apresentados pela Abraspe ajudam a dimensionar a velocidade dessa transformação. Em apenas cinco anos, a adoção de plataformas de ensino saltou de 54% para 77% nas escolas particulares brasileiras. O material didático digital também avançou rapidamente, passando de 55% para 83% no mesmo período.

Apesar da expansão tecnológica, a pesquisa mostra que o livro físico ainda mantém forte presença na rotina escolar, principalmente no Ensino Médio. O dado indica que o avanço digital não substituiu totalmente os modelos tradicionais, mas criou uma convivência entre formatos físicos e digitais dentro das escolas.

Entre os principais motivos para adoção das plataformas aparecem a comunicação entre professores e alunos, apontada por 52% dos entrevistados, além do acesso facilitado a conteúdos e da aplicação de atividades fora da sala de aula. O levantamento mostra que as escolas passaram a enxergar essas ferramentas como parte da organização pedagógica cotidiana, e não apenas como recursos complementares.

No caso da Teachy, os dados mostram um cenário ainda mais avançado em relação à inteligência artificial. Segundo o relatório “IA nas Escolas 2027: A Nova Era das Superescolas”, mais de 60% dos docentes já utilizam ferramentas pedagógicas com IA há pelo menos seis meses. Mais da metade afirma usar essas soluções em duas ou mais aulas por semana.

A pesquisa também aponta impactos concretos na rotina escolar. Cerca de 91% dos professores afirmam economizar tempo com IA, enquanto quase metade relata redução superior a 15 horas semanais em atividades operacionais e planejamento pedagógico. Além disso, 86% observaram aumento no engajamento dos estudantes e 82% identificaram melhora no desempenho acadêmico.

Fonte: Abraspe

Fonte: Pesquisa Abraspe

OCDE alerta para uso superficial da inteligência artificial

Se os levantamentos da Abraspe e da Teachy mostram avanço acelerado da tecnologia, o relatório da OCDE trouxe um alerta importante para o debate educacional. Segundo o estudo, a maior parte das escolas ainda utiliza inteligência artificial de maneira limitada, funcionando principalmente como ferramenta operacional ou mecanismo ampliado de pesquisa.

Do ponto de vista dos estudantes, o levantamento mostra que 56% utilizam IA para buscar informações, enquanto apenas 21% afirmam usar a tecnologia para construir processos mais complexos de aprendizagem. O dado indica que a inteligência artificial ainda aparece mais associada à velocidade de acesso ao conteúdo do que à construção de conhecimento aprofundado.

Entre os professores, o cenário é semelhante. Grande parte dos docentes utiliza IA para elaborar resumos, organizar roteiros de aula e automatizar tarefas administrativas. O estudo aponta que, embora essas aplicações tragam ganhos operacionais importantes, elas ainda não representam transformação pedagógica consistente.

Lucia Dellagnelo, diretora de Educação e Habilidades da OCDE, afirmou durante a Bett Brasil que o principal desafio atual não é apenas incorporar inteligência artificial às escolas, mas compreender estrategicamente qual deve ser seu papel dentro do processo educativo.

“O Brasil não está atrasado na implementação de IA dentro do sistema educativo. Essa tecnologia chegou há pouco tempo e se espalhou rapidamente, por isso muitos países ainda tentam entender como incorporá-la ao currículo”, explicou.

O relatório também alerta para diferenças importantes entre desempenho imediato e aprendizagem consolidada. Segundo Lucia, estudantes podem apresentar melhora rápida em avaliações com apoio da IA sem necessariamente desenvolver compreensão profunda ou retenção consistente dos conteúdos trabalhados.

“O que temos notado é que existe melhora imediata no desempenho do aluno quando ele usa IA para estudar para testes. No médio e longo prazo, porém, os alunos esquecem mais facilmente do conteúdo”, afirmou.

Humanização e pensamento crítico ganham centralidade

Se a digitalização avança rapidamente, a valorização das relações humanas também aparece como prioridade crescente dentro das escolas. A própria pesquisa da Abraspe evidencia esse movimento ao mostrar que, para 55% dos pais, a qualidade do ensino segue como principal critério de escolha escolar, enquanto valores éticos, humanos e morais aparecem logo em seguida, com 25%.

O levantamento também aponta forte aprovação das iniciativas socioemocionais. Cerca de 94% dos profissionais da educação, 93% dos estudantes e 89% das famílias afirmam estar satisfeitos com os materiais voltados ao desenvolvimento emocional e comportamental. Além disso, 98% das escolas relatam resultados positivos após a implementação dessas práticas.

Quando questionados sobre o futuro da educação, professores e gestores demonstram preferência por um modelo híbrido, capaz de combinar inovação tecnológica com acolhimento e inclusão. Entre os educadores, 36% defendem que o principal foco da escola deve ser justamente a construção de ambientes mais humanos e seguros para aprendizagem.

Já os estudantes demonstram maior entusiasmo com a digitalização. Segundo a pesquisa, 67% acreditam que o futuro da educação será totalmente digital, com menos cadernos físicos, mais ambientes virtuais e experiências de aprendizagem mediadas pela tecnologia.

Os pais ocupam uma posição intermediária nesse debate. Embora reconheçam a importância da tecnologia, muitos demonstram preocupação com excesso de telas, saúde mental e perda de pensamento crítico. A percepção predominante é que inovação e convivência precisarão caminhar juntas nos próximos anos.

Ao final da Bett Brasil 2026, os levantamentos apresentados reforçaram que a discussão sobre inteligência artificial na educação entrou em uma nova etapa. A presença da IA já não depende mais de autorização institucional ou adesão futura. O desafio passa a ser construir estratégias pedagógicas capazes de integrar inovação, aprendizagem profunda, convivência e desenvolvimento humano dentro do mesmo projeto educacional.

Compartilhe: